Com suas atividades iniciadas em 2005 pelo Observatório de Favelas, a Escola Popular de Comunicação Crítica (Espocc) foi criada para fortalecer e construir a capacidade de mobilização das comunidades de espaços sociais populares. Estabelecida no conjunto de favelas da Maré, no Rio de Janeiro, seu objetivo é iniciar jovens e adultos de espaços populares em conhecimentos e vivências da teoria, metodologia e linguagens da comunicação popular, visando potencializar sua ação crítica e transformadora.

Para conhecer mais sobre a Escola, conversamos com o publicitário Rodrigo Azevendo, Professor e Coordenador de Projetos da ESPOCC. Confira a entrevista abaixo: 

Como você conheceu a ESPOCC?

Eu era da área de Marketing de uma empresa do segmento de Telecom no Rio de Janeiro e fui convidado por um colega de trabalho para assumir a cadeira de criação publicitária e cultura digital, que estava vaga. Começamos a dar aulas em dupla e assim fomos parar na ESPOCC. E assim eu larguei o mercado ‘tradicional’ para ser professor e trabalhar com projetos e consultoria.

Você é gerente de projetos e professor. Como você passou a exercer essas funções, e como é o cotidiano delas?

A vaga de gerente de projetos existia no escopo da Escola como uma posição que fosse capaz de integrar a Agência Modelo, Diálogos, os alunos e projetos externos. Produzimos conteúdo para Anistia Internacional, parceria com ESPM e outros trabalhos que eram, na verdade, grandes testes para a estruturação da Diálogos. A rotina era frenética e intensa, mas maravilhosa. O aprendizado constante. Falamos de grandes profissionais juntos de alunos que são também grandes; grandes artistas plásticos, produtores de eventos, poetas, redatores, professores, articuladores políticos e sociais... tinha de tudo. Era uma misturada de conhecimento que no final resultava em campanhas e projetos brilhantes, tocantes, eu diria.

Como é o envolvimento dos alunos? Existem dificuldades?

As dificuldades para permanecerem em aulas são muitas. A necessidade de trabalhar e ter renda. Em tese, a maioria é de estudantes de territórios populares, então precisam se virar para pagar as contas e muitas das vezes manter as suas casas. Estamos falando de um curso dentro de favela, onde a polícia entra com o pé na porta, onde o tráfico senta o dedo mesmo... Então a violência é um ofensor. O transporte público de péssima qualidade e o planejamento urbano, ou a sua ausência, dificultam o acesso. À noite temos aulas a partir das 18h, chegar à altura da passarela 9 da Avenida Brasil, no horário de rush, em pleno Rio de Janeiro, é um desafio enorme.

Além disso, as turmas são plurais e intensas, então o conteúdo precisa dialogar muito com essa galera. Se chegar com coisas mornas, eles reclamam e o interesse cai. Já me peguei muito mudando apresentação e aula dois minutos antes do início da atividade porque rolou uma pesquisa nova, uma campanha interessante e queria dividir com eles algo novo, que estava acontecendo naquele momento. Agora, a criatividade da galera que passa pela Escola é surreal. Eles estão criando, inventando, discutindo e repensando tudo o tempo todo. Então no decorrer das atividades, as ideias surgem com uma naturalidade incrível. E tornar essas ideias em ações, requer muito trabalho, tudo é mega, com uma sede grande, mas acontecem.

Como você observa o desenvolvimento dos alunos durante o curso?

O que podemos perceber, acompanhando o trabalho deles, é o aumento do engajamento. A grande maioria atua em coletivos culturais, políticos ou estão em trabalhos, seja no terceiro setor ou até mesmo em empresa. Temos estudantes na direção da Central Única das Favelas (CUFA) trabalhando em emissoras como a Globo e GLOBONEWS, alguns dando aulas, outros tocando seus ateliês em favelas da Maré e por aí vai. A maioria já chega com algum trabalho ou articulação, mas percebemos que isso se amplia e fortalece ainda mais ao passarem pela ESPOCC.

Quais os projetos mais interessantes que você viu serem desenvolvidos na ESPOCC?

Sem dúvida a campanha Juventude Marcada Para Viver, que conseguiu ditar pauta ao colocar uma ação de guerrilha no largo da carioca (mais informações no na Fanpage do Projeto JMV) e repercutir a ação em todos os principais veículos do Rio de Janeiro. A campanha discutiu a morte de jovens negros nas favelas e territórios populares do Rio, um número alarmante, mas invisível no Estado e no país. E discutimos essas mortes falando de vidas, com uma campanha totalmente pensada e construída pelos alunos, em parcerias com o corpo técnico da escola e amigos, publicitários e produtores, que chegaram juntos e fizeram a coisa acontecer. A campanha teve uma linda festa no Parque Municipal de Madureira, reunimos de músicos como B Negão a pensadores e atores cariocas como o Marcus Faustini.

Alguma história interessante?

São muitas. Sem exagero, eu mudei a minha vida e o pensar no futuro quando cheguei à escola. Ainda é muito prematura, mas foi dela que saiu a decisão de dar aula, de trabalhar em algo que tenha significância e faça sentido, que tope o desafio de não viver de publicidade por publicidade, vender iphone e gerar consumo só para disputar festivais. Quero trabalhar com comunicação usando essas experiências, mas em outras pegadas. A ESPOCC é por si só uma grande história que merece ser compartilhada. Dentro dela? É história o tempo todo. E das boas.

A ESPOCC tem 3 “Perguntas Fundantes”. Você poderia tentar dar as suas respostas?

1) Os espaços populares podem construir sua própria representação sociocultural? Podem desafiar a representação dominante, que relaciona esses espaços à violência, carência e precariedade?

Eu respondo que sim, citando, por exemplo, o projeto da Roberta, aluna da escola que participa do “Mulheres de Pedra”, lá em Guaratiba, que vive de arte, cultura, hospedagem, tudo muito puro e de raiz, respeitando e ocupando aquele espaço com muito respeito ao seu entorno e história, e desafiando lógicas, como a de mercado e consumo que poderiam gerar maior renda, mas ofenderiam diretamente a proposta da atividade. Eles encontra um equilíbrio entre viver e manter a sua história e proposta.

2) A periferia pode identificar e resolver seus próprios desafios de comunicação, tornando-se protagonista e não apenas “beneficiária” destes processos?

Pode e vem fazendo isso. Desde o Mídia Ninja, que em junho deu um banho e fez escola com a sua cobertura nos protestos que sacudiram o país, diversos coletivos estão trabalhando e fazendo a informação circular de uma forma ampla e coerente nas redes sociais, seguindo muito o que aqueles caras fizeram nos protestos em todo o país. Há um desafio, porém, sair do “circulo padrão” e conseguir dividir seus conteúdos com mais pessoas, além daqueles que estão na sua volta e já são naturalmente engajadas, ligadas ou sensíveis ao conteúdo. Isso é algo difícil, mas que na hora que começar a funcionar, meu amigo, ninguém segura.

3) Essas experiências podem ser sustentáveis? É possível e desejável viver de comunicação cidadã e popular? Como o trabalho em rede pode colaborar com isso?

Aí eu confesso que é uma questão que não consigo responder. Pagar as contas no fim do mês com esse trabalho, ou só esse, é um desafio grande. É difícil. O debate de sustentabilidade precisa, muito, de discussão e desenvolvimento, até mesmo para deixar claro qual o recorte de sustentabilidade estamos falando. O Luís, que foi coordenador geral da escola, é um cara que tem maior habilidade em travar esse debate.

Qual a posição da ESPOCC em relação à ocupação da PM realizada na Maré?

Toda ocupação feita da forma que foi, com tanques e esquema de guerra, militar na sua essência, é ruim, agressiva e não faz bem para ninguém. E a ESPOCC não tem uma posição clara por não ter vivido esse momento. Estamos parados desde o término do patrocínio no fim de 2013. O Observatório de Favelas, sim, vem se posicionando em busca do diálogo, promovendo debates e encontros, e o Mariano Beltrame e Luiz Eduardo Soares são dois importantes atores nessa questão toda que estiveram na Maré para travar debates. Outro ponto é o avanço do trabalho social e de base nas favelas ocupadas. É fundamental ir além das forças militares. E, creio eu, Rodrigo, que esse seria um caminho também da ESPOCC: a defesa do diálogo, da população no centro da discussão, definindo ações, estratégias e políticas públicas que tornem a região parte integrada da cidade, com direitos e presença de serviços públicos, capazes de proporcionar segurança, de fato, e qualidade de vida aos seus moradores.

Qual a sua opinião em relação à ocupação?

Da forma que veio, não vai funcionar. Na verdade ela não é feita para funcionar. Não há um processo de ocupação estratégica que avisa que vai chegar, ou seja, deixa a porta aberta para o tráfico fugir, e que não discuta questões maiores, como o tráfico de armas, a chegada das drogas no estado e país, não pense em segurança pública como algo maior do que o uso de força militar e que não entenda ou trate a região como um campo de batalha a ser conquistado, que não faz parte do estado, isso tudo são equívocos que não vemos o estado discutir e que mostram o motivo dela não funcionar. As armas circulam, os traficantes migram e a UPP não é capaz de construir segurança, e muito menos acesso aos serviços públicos mais básicos, como transporte, e por aí vai. Aliás, esse nem é o papel dela e no estado há quem o faça. Ou se pensa de forma macro, com diálogo e construção entre diversos atores, ou teremos sempre o bang-bang que mata pobre, favelado e policial, a ponta do estado que vai pra dentro das favelas. Outro problema é a guerra às drogas. A política de combate ao consumo de drogas é equivocada, pensa somente na repressão, no ataque direto, passou do tempo de discutir regulamentação, como no Uruguai, e a investida em novas políticas públicas para essa questão, livres de preconceito e moralismo, ou hipocrisia. Aponto vários tópicos, misturo tudo, mas se pensarmos bem, todos eles se conectam e tratam da mesma coisa, segurança pública nas favelas e para as favelas, não só para os turistas e moradores de regiões que passam por essas localidades.


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